Dimensões Dimensões

Resultado de uma noite sem dormir, durante uns dias de férias em Vila Nova de Milfontes, ao som de chuva e trovoada e iluminado por relâmpagos. Pseudo-científico-filosófico. As férias até foram interessantes!


Dimensões

Este era um sistema planetário estável e não existiam muitos desses. Os mais próximos eram todos sistemas instáveis, uns mais, outros menos. Nesses, a alteração frequente da órbita dos planetas exteriores, que por vezes saíam mesmo do seu sistema e viajavam aleatoriamente até serem atraídos por outro, provocava alterações drásticas em todo o equilíbrio do conjunto. Não ao ponto deste se desintegrar, mas suficiente para que a vida não pudesse aparecer ou florescer.

Para além de um sistema estável, a vida precisava de um planeta que não estivesse demasiado próximo da fonte de gravidade do seu centro, nem demasiado distante. Num dos casos seria sobrecarregada e no outro não teria energia suficiente para fomentar as reacções necessárias à génese da vida e, depois, à sua manutenção e evolução.
Mas neste sistema em particular tudo se tinha composto para que a vida surgisse e florescesse. Toda a estrutura era mantida de modo coerente pelos pólos magnéticos no seu centro que atraíam os planetas, de polaridade inversa, ao seu redor. Não se despenhavam no centro porque orbitavam à sua volta a grande velocidade e a força centrífuga contrabalançava por completo a atracção entre os polos opostos.
O núcleo deste sistema era constituído por vários astros que, para além da polaridade, forneciam gravidade, a energia que provocava toda a agitação e vida nos planetas por ela banhados.
Nestes sistemas estáveis as órbitas era sempre ocupadas por dois planetas. Nunca se encontravam, e tinham sentidos de rotação opostos que, mais uma vez, mantinham a coerência da órbita e do sistema em si, como se de uma máquina extremamente precisa se tratasse. Admitia-se que este equilíbrio se atingiu ao longo de muitos milhares de milhões de ciclos planetários, desde que o universo apareceu.
Ainda mais raro é que dois planetas que partilham uma das órbitas tenham as condições ideais para a vida.

E assim foi, a vida surgiu, evoluiu em várias formas e algumas dessas formas adquiriram consciência do seu estado e passaram a estudar-se e a estudar tudo à sua volta.
Aprenderam e inventaram muito. Aprenderam a usar os polos magnéticos para se erguerem da superfície dos seus planetas em máquinas pesadas e complexas. Em pouco tempo puderam encontrar ao vivo os seres do seu planeta gémeo, com quem aliás já comunicavam há muitos milhares de ciclos. Não eram iguais, nem sequer parecidos, mas acabaram por entender o que os unia e passaram a partilhar o conhecimento uns dos outros. A partir daí a evolução foi ainda mais rápida porque modos de pensar e contextos diferentes ofereciam soluções aparentemente impossíveis do outro ponto de vista.

Rapidamente os limites do seu sistema planetário se tornaram pequenos demais e vasculharam todos os sistemas próximos na procura de outras formas de vida, de mais conhecimento, de novas perspectivas.
Sabiam que existiam outras formas de vida, tinham já recebido os seus sinais e tinham também emitido na direcção deles e em variadíssimas outras direcções pelo espaço fora. Mas os sistemas estáveis mais próximos estavam a muitos milhões de ciclos-gravidade de distância. Seria preciso quase tanto tempo para ir ao encontro deles como o tempo que demoraram a evoluir a partir das primeiras cadeias de polarização. E a vida média de um deles raramente chegava aos 500 ciclos!

Procuraram outras saídas e a determinada altura perceberam que podiam projectar a sua consciência para além do espaço físico que conheciam. Podiam com ela chegar onde quisessem desde que soubessem o que queriam. Mas não era de todo um método de comunicação fiável, só podia ser bidireccional se encontrassem alguém com o mesmo tipo de consciência. Ainda assim podiam sentir as presenças de outros.
Mas a projecção de consciência trouxe-lhes surpresas, outros conhecimentos. Descobriram com ela que podiam igualmente ultrapassar a barreira das dimensões que conheciam, onde viviam e que tão bem conseguiam usar.
Passaram a estudar avidamente esta nova perspectiva. Era surpreendente o que sentiam que podia existir nas outras dimensões!

No decorrer desse estudo obtiveram a solução para o seu problema anterior: viajar para pontos distantes do universo em tempo útil.
Se conseguissem saltar para uma dimensão que abarcasse todas as outras que conheciam. Se isto lhes desse um ponto de vista com acesso imediato a qualquer ponto das suas dimensões quotidianas poderiam viajar para qualquer ponto do universo apenas com o dispêndio de tempo de transpôr as dimensões.
O tempo chegou em que efectivamente desenvolveram tecnologia que, em teoria, lhes permitia saltar para essa dimensão superior. Os riscos de a utilizar eram muitos e a maior parte dos seres tinha raízes muito fortes nos seus mundos. Arriscar a vida por algo pouco certo não era de fácil decisão. Mais difícil era a decisão quando essa tecnologia poderia colocar em risco todo o seu sistema planetário e os que o circundavam.

Intrépidos e capazes voluntários foram encontrados e uma situação de compromisso a nível de segurança foi encontrada. Convenceu todos que essa não seria uma aventura assim tão perigosa para o mundo deles.
Procuraram no universo um local vazio, um local sem sistemas planetários ou sequer sistemas astrais estéreis por perto. Os sistemas estáveis, capazes de suportar vida, estavam ainda muito mais distantes e, numa viagem de várias dezenas de ciclos à velocidade convencional que eram capazes de conseguir, dirigiram-se para lá.
Várias naves e postos de observação foram colocados a distâncias progressivamente maiores do local onde a tecnologia ia ser activada e quando isso aconteceu uma pequena catástrofe abateu-se sobre eles.
Em vez de uma energia explosiva o que presenciaram foi um efeito que puxou para o centro do dispositivo tudo o que estava em volta. Os postos de observação mais próximos desapareceram quase instantaneamente, os astros foram sugados pelo efeito e a anormalidade continuou a espalhar-se, embora cada vez mais lentamente.
Os sistemas planetários mais próximos ainda foram fortemente afectados. Alguns desapareceram mesmo, outros desintegraram-se mas, por fim, apenas pequenas anomalias nas órbitas foram detectadas e o efeito acabou por se tornar imperceptível a todos os seus instrumentos de medida.
Para além disso, resultados práticos não houve nenhum, não se conseguiu estabelecer qualquer comunicação longínqua, não houve sinais de sistemas desconhecidos nem do regresso de alguém da equipa. Nada durante as centenas de ciclos que se seguiram até que a experiência foi abandonada e esquecida em favor de outras aproximações.

Dentro do dispositivo a experiência foi completamente diferente, mas igualmente avassaladora.
Na perspectiva dos ousados seres dentro do dispositivo interdimensional o universo começou por se começar a mover a uma velocidade assustadora à sua volta e a encolher vertiginosamente. Incrédulos viram o seu universo a colapsar, destruir-se e desaparecer num ínfimo ponto de luz ao fim de breves momentos.
A primeira impressão foi que seriam responsáveis pela aniquilação não só dos seus mundos como de todo o universo conhecido.

Mas estavam vivos ainda! Havia alguma coisa à sua volta, afinal o universo era mais, muito mais do que conheciam, inimaginavelmente mais.
Procuraram sinais de vida e inteligência e encontraram-na a toda a sua volta. Estavam num outro sistema planetário. Estavam num planeta a que os seus seres dominantes chamavam Terra. Aqui não havia planetas gémeos em cada órbita e o núcleo do sistema era constituído por um simples astro. A coerência do sistema não era mantida por polaridades magnéticas como as que conheciam, mas pela gravidade que podiam ignorar no seu sistema natal e em boa parte do seu universo. O astro também radiava energia, mas em forma electromagnética. Era um tipo de luz, como estes seres lhe chamavam, e também sustentava grande parte da vida e agitação de todo o sistema.

Partiram com o objectivo de atingir pontos distantes do seu universo e conhecer mais, aprender mais.
Nunca conseguiram atingir esses pontos, aliás, destruíram o seu universo e não teriam modo de atingir ponto algum dele.
Mas, por outro lado, não causaram qualquer dano significativo ao seu universo natal. A destruição que testemunharam em poucos segundos, a unidade temporal neste novo sistema, na realidade demorou milhões de milhões de ciclos no universo que o sofreu, foi causada alguma perturbação local na zona onde a experiência foi despoletada, mas nada de perceptível foi sentido na quase totalidade desse universo e talvez o tempo que ele durou tenha sido exactamente o mesmo que teria durado se a experiência nunca tivesse ocorrido. O tempo que demora a extinguir-se uma faísca!

Mas afinal há aqui tanto de novo para aprender, tantas novas perspectivas e tantos novos temas. Nunca tiveram na realidade esperança de voltar aos seus planetas natais. Grande parte dos seus objectivos podem afinal ser perfeitamente atingidos!


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E se outra dimensão não se tratar de uma perspectiva completamente diferente mas tão somente uma questão física de dimensão e de percepção de tempo?
E se um universo inteiro, desde o seu início até ao final, não fôr mais que uma faísca visto de outra perspectiva?
E se o big bang e o nosso universo não passar de um fósforo a acender-se numa outra dimensão?